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ARTIGO: QUEM ALIMENTA O BRASIL APANHA DELE



Toda semana há uma bomba para desarmar em Brasília. Em vez de discutir como fortalecer o pequeno produtor brasileiro com políticas públicas estruturantes de longo prazo e programas de incentivo, pensando no futuro do setor, passamos a discutir, por necessidade, como ele sobreviverá até a próxima safra.


Mesmo que o sol ainda nem tenha nascido, ou já passe das dez da noite, enquanto você lê este texto, tem um produtor rural na lida, mas sem saber se vai conseguir pagar a parcela do trator que comprou para aumentar a produtividade. Impotente, ele vê o custo subir, o defensivo ficar mais caro, o imposto aumentar dia após dia, o crédito para plantar sumir do banco e o seguro rural que o protegeria em caso de pragas ou intempéries, desaparecer.

Ainda assim, sob pressão, o agro, desde o grande fazendeiro que já não suja mais as botas, até o pequeno produtor que tem barro embaixo da unha, continua resiliente e comprova na prática que é um pilar essencial da nossa economia. Mas isso parece não ser suficiente para o governo federal que trata o problema como algo distante da realidade, e o agricultor como inimigo.


O setor responde por mais de 25% do PIB brasileiro e alimenta 10% da população mundial.



Em contrapartida, produzir no Brasil hoje exige mais esforço para lidar com o sistema do que com a própria lavoura. A burocracia é sufocante, assim como as narrativas que distorcem a realidade. Nosso país tem uma das legislações ambientais mais rigorosas do planeta. Temos 283 milhões de hectares preservadas dentro das propriedades rurais, o que representa aproximadamente 33% de todo o território nacional, mas parte do debate público insiste em retratar o agricultor como um predador ambiental, trabalhista ou um irresponsável no uso de defensivos. Quem reverbera esse discurso é mal informado ou mau caráter, que ignora a evolução tecnológica e as práticas responsáveis adotadas no campo.


Tudo isso nos impõe a um desafio silencioso que cresce no horizonte: a fuga de jovens do campo. Sem perspectivas, muitos filhos de produtores olham para a cidade e se perguntam se vale a pena continuar na atividade rural. Qual motivação tem hoje um filho de agricultor para ficar na propriedade onde os pais acordam antes de o sol nascer, vão dormir tarde, não têm férias, dia santo e nem feriado e, mesmo assim, não conseguem pagar as dívidas no fim do mês?


Se essa pergunta ficar sem resposta, o país perde mão de obra e a sucessão fica comprometida. E aí, surge outro questionamento: como será possível continuar alimentando o mundo? Em tempos de incerteza global, segurança alimentar virou tema estratégico e poucos países têm condições de liderar essa missão como o Brasil. Mas isso só será possível se tivermos clareza da necessidade de proteger o produtor rural para proteger o nosso futuro.


Que bom seria se o poder público governasse enxergando a relevância econômica e social que tem o setor produtivo para o país, e não somente perseguir o horizonte da próxima eleição. A agricultura brasileira precisa de um plano de Estado, não de governo.


O homem do campo não quer esmola ou privilégio, quer condições de trabalho, previsibilidade e segurança jurídica. Seguir ignorando isso não é apenas omissão. É uma escolha. E toda escolha cobra seu preço.


Por Rafael Pezenti

Deputado Federal (MDB-SC)

Diretor da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA)

 
 
 

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